Alfredo Votta

Sábado, Maio 31, 2008

Outro lugar...

Este blog mais ou menos não existe. Escrevo apenas no blog sobre música, ao menos por enquanto. Ele se encontra neste endereço:

http://blog.alvotta.net

E o meu site:

http://www.alvotta.net

Quinta-feira, Janeiro 24, 2008

Só uma idéia

Dizem-me: "é só uma idéia". Mas uma idéia já é bastante coisa.

Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

LXXXI

Parabéns para o blog. Fez cinco anos há poucos dias.

*

Quando me inscrevi num programa de pen-pal, dez anos atrás, recebi um folheto com algumas sugestões para o momento de escrever. Uma delas era don't write when you're miserable. Não escreva quando estiver mal. Ou triste. Ou algo desse gênero. É um conselho bem sensato. Mas talvez valha só para quem vai escrever, no mínimo, as primeiras cartas para o seu pen-pal. Quando já tiver com ele ou ela intimidade, pode escrever se estiver miserable. E, se não forem cartas, estar triste pode ser um ótimo momento para escrever.

Também pode ser péssimo. Tanta tristeza que mal se consegue articular uma frase ou mesmo um substantivo com adjetivo.

Escrevi numerosas miserable words para a minha pen-pal grega, ela também me escreveu muitas. Claro que o folheto do serviço tinha que ser breve, limitar-se ao essencial, mas, se quisessem ser mais detalhados, poderiam dizer que, conforme se desenvolva a relação entre os pen-pals, é importante saber valorizar os momentos miserable, ou blue, e todos os outros adjetivos que encontrarem nessa linha.

O mundo está por aí cheio de jovens alegres, parecidos até mesmo com os personagens de um livro de inglês para adolescentes que conheci; todos um pouco eufóricos, fazendo sempre muitos esportes, não precisando dos pais e sabendo o nome das peças de roupa sem precisar perguntar.

Está também cheio de jovens menos alegres que não entrariam em nenhum livro de ensinar idiomas.

Às vezes esses dois tipos são a mesma pessoa.

(...)

Update. Mudei o nome deste post de LXXX para LXXXI porque acrescentei postumamente um post para Novembro de 2007. Assim aquele mês não fica vazio. Há outros meses vazios para preencher, vou ver se preencho mesmo. De qualquer modo, estes nomes em algarismos romanos serão sempre meio inexatos.

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

Os tais dos momentos

É verdade, em Novembro eu ia escrever um post só para não ficar vazio e o mês não ficar ausente dos arquivos. Mas ficou. De uns anos para cá é comum em blogs que alguns meses fiquem fora dos arquivos. Então desta vez a seqüência é assim: Outubro de 2007 – Dezembro de 2007.

*

Tinha até um assunto. Era o seguinte: pessoas que falam em “aproveitar o momento”, ou “viver o momento”. Perdoe-me se você é assim, mas gente que fala isso me dá um pouco de medo. Parece que de uma hora para outra a pessoa vai se entediar da minha presença e vai embora, porque já passou o tal do momento. Parece que a pessoa não se importa com nada – eu sei que não é assim, mas é a impressão que dá. Fica até parecendo que a pessoa nunca tem saudades nem tristeza de nada. De nada.

Argh, acho que perdi a prática de escrever, se é que já a tive, ou então estou ansioso demais para conseguir dizer o que estou tentando dizer.

Já aconteceu; eu falei alguma sobre a vida eterna, sobre tentar ser bom, e me responderam, como se não me houvessem escutado: “sim, o importante é viver o momento...”. Puxa vida.

Não, não, eu não discordo da idéia de que é bom e importante se concentrar. Já fui aconselhado: quando estiver penteando os cabelos, concentre-se em pentear os cabelos e apenas nisso; quando tocar, apenas toque etc. Sim, isso é muito bom. Mas estou falando de outra coisa: não consigo ter a frieza de ignorar coisas passadas, dizendo que foram “momentos” e que eu os aproveitei. Comigo tudo continua acontecendo para sempre.

Sexta-feira, Novembro 30, 2007

Novembro

Novembro não pode ficar vazio.

Não, não, não.

Quarta-feira, Outubro 10, 2007

Brincadeira com livros

Recebi do amigo Cláudio Téllez as regras para uma brincadeira com livros. Então transcrevo aqui a frase que encontrei:

Bars 63-77. A sentimental song, interrupted twice by motifs of the second material.

O livro é The piano works of Claude Debussy, de E. Robert Schmitz. Não sei se pode explicar, mas este trecho faz parte de uma descrição de Minstrels, última peça do primeiro livro de Préludes.

Não estava tão próximo assim de mim, mas abri o armário e peguei o primeiro livro, o que estava mais por cima por outros.

Segundo as regras devo transmitir o jogo para outros cinco blogs. Escolho, portanto, o Evandro (aqui ou aqui), a Sue, a Clara, a Rebeca e a Roma.

Seguem as regras para quem quiser participar da brincadeira:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);

2ª) Abra-o na página 161;

3ª) Procurar a 5ª frase completa;

4ª) Postar essa frase em seu blog;

5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;

6ª) Repassar para outros 5 blogs.

Sexta-feira, Setembro 28, 2007

Um acorde

Nesta semana houve um dia em que me vesti de azul, verde e marrom. Convencionalmente não combina. Nem precisava do marrom, na verdade, o verde e o azul sozinhos não combinam. Mas é um tipo de dissonância visual que costumo usar. Geralmente são calças verdes e camiseta azul, lembrando as árvores verdes e o céu azul, uma dissonância da natureza. Fica um pouco parecido com um acorde de fá maior sobreposto a um de dó maior.

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Bem, e “marrom” é uma palavra feia. Faz a cor parecer terrível. Tanto que não se usa esta palavra para falar da cor dos olhos. Ninguém diz ter olhos marrons. Num livro, talvez, fique bonito, dependendo do que estiver em volta.

O acorde que escrevi ali acima é estranho mesmo. Ele é muito mais estranho do que estranho, porque não saem dele raios luminosos. Os acordes estranhos bonitos costumam pôr um raio na cara da ouvinte, de modo que ela não vê nada; o observador é que a vê, os olhos fechados, o Sol no rosto. Ele, o acorde, pede alguma coisa depois. E é quase qualquer coisa. Não é uma dominante pedindo resolução na tônica; e, que se for resolvida noutra coisa, causa surpresa; não; é um acorde muito instável, sem resolução óbvia. Uma das possibilidades é remover algumas de suas notas, ou talvez apenas uma. Tirar o fá aliviaria bastante. Ou o mi. Ou o mi e o lá.

Tendo quase sempre a pensar em acordes de modo luminoso. Por isto é que este parece opaco. Ele serve bem a um uso percussivo, ponto de vista que só há relativamente pouco tempo adicionei ao meu raciocínio (talvez. Mas acho que já tinha pensado assim antes também).

Sexta-feira, Julho 06, 2007

O Imperador e a montanha

O Imperador está querendo ir para a montanha.
Para a montanha está querendo ir o Imperador.
Além disto tudo é ideograma chinês.

Por que não vive de uma vez
o Imperador na montanha?

É que ele não sabe se lá do alto
se pode ver o Império todo
sem névoa o tempo inteiro.
E arrisca-se a ter que descer
de tempo em tempo para ver as coisas.

(O profeta diz:
não, a coroa não sai,
e, sim, de lá vedes tudo).

Quinta-feira, Junho 28, 2007

Resumo

Ontem comecei (e continuei) a escrever um longo post sobre coisas que andei e ando fazendo, mas ele ficou muito arrastado e muito denso sem que nada dissesse. Resumindo, eu falava o seguinte:

1. Em 2006 não pude me concentrar em escrever música para piano.

2. Em 2006 comecei a lidar com música litúrgica, apesar de não ter até agora podido usar o que escrevi, com exceção de peças instrumentais.

3. Existe uma possibilidade de que o ciclo de peças com nomes de pedra esteja encerrado, mas é difícil afirmar com segurança.

4. Os nomes das peças com nomes de pedra são: Água-marinha, Ônix, Ágata, Topázio, Rubi, Esmeralda, Turquesa, Turmalina, Ametista, Opala e Safira. De modo geral elas são progressivamente mais longas, com exceção de Opala que revive a escala de tempo de Água-marinha.

Parece-me não haver mais nenhum ponto.

Sábado, Junho 09, 2007

Nesta madrugada

Nesta madrugada fiz poucas mas intensas coisas. Pensei, como de hábito. Então nem é tão intenso assim porque, por mais intensamente que eu pense, já é costume, então nem é tão pesado. Um pouco, só.

Reli também diversos textos da saudosa revista Outonos, dos bons amigos Sue e Evandro, para a qual cheguei a contribuir com três textos. Na minha cabeça eram só dois. Hoje fui lá ver e descobri que tinha escrito um outro também. Só tenho uma pequena aflição por ter escrito lá que um certo compositor brasileiro era campineiro, sendo que ele é santista. Mas acho que corrigi isso nos comentários. Sue e Evandro, se lerem este post, não o interpretem como pedido de correção não... sei que trabalham muito e que o Outonos no momento está descansando. E, mesmo que fosse algo oficialmente morto, os arquivos estão lá, cheios de coisas belas.

O Outonos, a propósito, fica em http://www.outonos.com

Escrevi também dois e-mails. Foram para pessoas com quem tenho contato freqüente na internet, mas que conheço pessoalmente. O primeiro foi para uma moça de origem ibérica com quem eu teria uma correspondência ainda mais volumosa se eu correspondesse à sua amizade e fosse generoso ao lhe escrever. Mas eu, com meus períodos de pausa e “recolhimento” (até eu já estou farto de me ouvir falar em “recolhimento”) acabo não fazendo tudo que poderia.

O segundo foi para uma moça de origem mediterrânea que falou desse recolhimento também, mais especificamente do ilhamento das pessoas. Creio não ter sido, aqui de novo, tão presente quanto poderia na minha missão de amigo.

Quero pedir desculpas a todas as pessoas em cuja vida eu tenha sido menos presente do que deveria ser, ou até mesmo mais presente do que deveria ser, mas sobretudo menos presente. Se as decepcionei, peço perdão; se fui grosseiro ou temperamental, peço perdão; quero que saibam que é sagrado para mim tratar bem os outros e manter uma atmosfera gentil tanto quanto possível, fazendo também o máximo para ser sincero e não mentir. Quero pedir perdão pelo meu maníaco recolhimento, que acaba atrapalhando muito em certas horas. Sei que devo ir ao encontro das pessoas, claro, mas quero dizer que estou sempre com disposição para que venham também ao meu encontro.

Sexta-feira, Junho 01, 2007

São Justino

Na memória de São Justino
ele lia a descrição
do herói que morreu por Cristo.

Como dói e humilha a letra
a narrar o que fez um santo:
foi homem como ele era.

Pobre de fortaleza
a tentação o atormenta
ele a cobre com a letra do herói

do mártir que humilha e acolhe
que acolhe e humilha por Cristo.

No dia primeiro de Junho a Igreja Romana celebra a memória de São Justino, mártir. Pensei nestas palavras ao ler sobre ele.

Domingo, Maio 27, 2007

Veni, III

Há poucos dias passei Veni no computador. Só as notas; faltam agora as dinâmicas, pedal, todo tipo de indicações. Ficou especialmente curiosa a data: MCMXCIII – MCMXCIX – MM – MMVI – MMVII.

Sendo escrupuloso demais e com certa obsessão por precisão (em algumas situações), resolvi indicar na partitura todos os anos em que escrevi alguma parte da peça, por menor que fosse.

Indicar apenas um desses anos seria muito inexato. Se eu marcasse só 2007, por exemplo, seria estranho: eu apenas terminei a peça nos primeiros dias de Janeiro. A maior parte foi escrita em 2006, mas a idéia é de 1993; porções importantes surgiram em 1999 e 2000.

Admito que tenho necessidade de gravar e ouvir minhas peças como parte da avaliação que faço delas, e ainda não o fiz com esta composição. Mas posso dizer que gosto dela, e parece que é a minha mais longa até agora, tem uns 22 minutos, se não me engano. Eu cronometrei há uns meses, mas já me esqueci.

*

E, só para acrescentar, digo que é mais uma peça completamente diatônica, inteiramente nas teclas brancas. Isto já fazia parte da idéia original adolescente.

Sexta-feira, Maio 25, 2007

Veni creator spiritus

Ultimamente têm desembocado neste blog várias buscas pela Seqüência de Pentecostes, cantada na Solenidade de Pentecostes que se celebra no próximo Domingo. Eu gostaria de recomendar a seqüência do Graduale Romanum. Mas para isto as coisas teriam que ser diferentes.

Li ontem num blog americano: quantos católicos conhecem o hino Veni creator spiritus? A autor, tremendamente otimista, apostava em 10%, talvez 20%. Alguns comentaristas do post arriscaram mais proximamente da realidade: 1%. Os católicos precisam se devolver o canto gregoriano. Ninguém fará isso por eles.

Da minha parte eu decidi, já há tempo, devolvê-lo a mim mesmo, e, mais recentemente, fazê-lo resolutamente, isto é, obter livros e aprender. Engana-se horrivelmente quem despreza o canto gregoriano. Engana-se horrivelmente quem achar, também, que todos deverão soar como os monges de Solesmes.

Bom, acho que é tudo que tenho a dizer sobre isso. Ah, sim: se você não encontrar uma música realmente boa para a Seqüência de Pentecostes, leia-a com devoção. E isto vale quanto a tudo para o que você não obtiver uma boa música.

*

Outras buscas revelam que muitas pessoas continuam a achar que o google é um oráculo.

*

Está bem frio em Jundiaí.

*

Ah, ali acima, quando falei que é errado supor que todos deverão soar como os monges de Solesmes, é isto que eu quis dizer: eles cantam magnificamente bem, e ninguém tem a obrigação de cantar magnificamente bem como eles. Entendam bem, não é que eu seja daqueles que combatem o modo deles de cantar.

Sábado, Abril 28, 2007

Opinião

Estou cheio de opinião nesta noite... já escrevi um post defendendo que existe música erudita e popular, e há alguns minutos votei numa enquete do orkut dizendo que “talvez” eu concorde com a existência da Renovação Carismática Católica, ato que parece um pouco mais malvado do que a minha intenção real. Onde isto vai parar?

Ficar dando opiniões não é algo muito ao meu gosto, especialmente ao escrever no blog, ou quando ninguém me tenha perguntado nada. Mas as minhas opiniões existem, então lá vão elas, de vez em quando.

E só queria dizer outra vez que, quando alguém expõe uma opinião e eu digo “hã hã” isto quer dizer que eu entendi, não que eu concorde.

Os dois rótulos

Muitas pessoas gostam opinar contra a aplicação de rótulos à música. Muitos particularmente se mostram contrários à divisão entre música erudita e popular, dizendo que atrapalha, ou que não faz sentido.

Admito que não penso que atrapalhe, e considero que faça, sim, sentido.

É uma classificação bem útil que explicita certas intenções. Como qualquer classificação, está, sim, sujeita a situações em que é difícil saber, obviamente eu admito que há músicas difíceis de julgar como eruditas ou populares.

Não quero nem tentar descrever as características de uma e de outra. A erudita costuma ser mais escrita e fixa, a popular menos escrita e com um tanto de improvisação. Mas tudo depende. Por favor: não é a existência do baixo cifrado, numa época particular, que joga por água abaixo esta quase-tentativa de delimitar as coisas. Nem as bandas de jazz ou rock que escrevem tudo.

Tem também a questão de a música erudita ser de concerto, e a popular, se de concerto, destinada a um tipo de concerto bem diferente.

Como disse, não quero nem tentar explicar. Mas que os dois mundos existem, existem. E isto não é nenhum problema para nenhum deles, nem para nenhum outro além deles. Quem se sente bem jogando fora o rótulo, que o ignore; mas para mim é imprescindível pensar neles.

Domingo, Abril 15, 2007

Você anda perdido

Você anda perdido, pelas estradas, procurando alguém, daquele modo: sei o que procurava quando o tenha acabado de encontrar. As gerações passam e continuamos no exílio. Será que antes do seu fim vem algo bom?

Você espera, vivendo a semana sempre cíclica, todos os humores em sete dias, mil mortes e renascimentos que o ferem tanto que não parece mais haver calma mesmo no silêncio, mesmo no sossego, mesmo quando o deixam só.

Quando nada mais parece ferir é porque muito já se feriu, e quando é assim tudo fere, mesmo sem parecer.

Espere seu último renascimento. Será o fim do desterro. E então terá paz.

Sexta-feira, Abril 13, 2007

Idéias e chocolates

Bem na Quarta-feira Deus houve por bem mudar o tempo, que vinha quente e insuportável, para algo muito melhor, mais fresco e menos violentamente claro. Mudou exatamente a tempo para a sua Semana Santa.

Comigo este é o centro do ano, o seu começo, o seu fim, pra onde converge tudo. Espero por todo o ano este momento. Por um breve instante tomei cuidado para não o transformar nas vãs esperanças pagãs pré-natalinas. O mundo ateu não roubou a Páscoa do mesmo jeito que roubou o Natal; roubou-a, mas de outro modo. Festas podem ser roubadas, mas não tiradas.

Estou amargo com o mundo, chamando-o de ateu? Não; ele mesmo é que é amargo por querer ser ateu.

Estou amargo com o mundo, tentando me localizar fora dele? Não; estando nele estou apontando onde é que ele erra e em que é diferente de mim e, mais do que de mim, de tantos que somos.

Mas não nos aflijamos. O chocolate que o mundo oferece é isto, chocolate, e agradável para comer. As idéias é que são venenosas, e guardemo-nos delas.

Jejum de música

Um pequeno e bem conduzido jejum de música pode fazer muito bem. Mas é necessário tomar muito cuidado com o que se pretende pôr no lugar vazio. Não se pode colocar rotina burocrática, trabalho desagradável, insensibilidade, situações coletivas forçadas.

Terça-feira, Março 27, 2007

O rio

Dici che il fiume
trova la via al mare


Tudo tem a sua primeira vez de acontecer, todas as coisas que existem, menos as transcendentes, têm a sua primeira vez. E nesta vez é a primeira vez que uso uma epígrafe de língua estrangeira... e de língua que não entendo... e talvez seja até a primeira vez em que uso uma epígrafe.

O momento é de guerra. Mas não falo isso como um jornalista de caderno internacional. Falo como amigo do profeta, tendo-me o profeta falado isto e eu apenas no papel de quem repete a sua palavra.

E no momento de guerra, especialmente, é que se percebe uma pergunta: esperar até quando? Soube que depois da grande tragédia das torres gêmeas muitos casais decidiram ter filhos, exatamente porque se perguntaram: esperar o quê? Vai ser agora.

A guerra traz essa sensação. Estranhamente a guerra parece ser normal. Quando ela acontece, parece que a vida da humanidade como massa é exatamente isso, guerra, e bem nesses momentos é que cada pessoa sozinha começa a construir a sua própria paz, às vezes na companhia de outra, às vezes solitária, mesmo. O mais importante é tentar construir a própria paz.

Por isso não se espera que sumam os homens armados, os helicópteros, mísseis, ódio, para que se dê caminho para o filho que nasce, para o amor que surge, que pensa, que continua, para a música que se escreve.

Viver doloridamente é mais bonito, faz mais sentido. Não me diria contra alguns pequenos espaços de neutralidade, de uma espécie de paz desinfetada que às vezes é um alívio para aqueles momentos, mas viver doloridamente é mais bonito e faz mais sentido. “A dor da ternura excessiva”, diz Gibran.

Mesmo que não haja guerra lá fora, que se celebre a memória dos mil pequenos eus feridos dentro de si.

Terça-feira, Março 20, 2007

Se ou por que não escrevo

Queria aproveitar para pedir desculpas por não estar escrevendo nada relevante. Não que o fizesse, antes. Mas agora menos ainda. Às vezes vêm desconhecidos em busca de conhecimento importante, e provavelmente não encontram. Se encontrassem, nem fariam contato, em geral.

Ocasionalmente, ou até com mais freqüência que o imaginável, penso em coisas relevantes. Mas meus pensamentos, pelo menos por enquanto, não são buscáveis pelo google. Basta tentar e isso se verifica com facilidade.

Há mais tempo eu punha aqui as plantinhas mais frondosas que me nascessem, mas com o tempo isso perdeu sentido e agora apenas rumino, aceito admitir que apenas rumino. Posts grandes já são raros, os pequenos começam a proliferar e grande parte dizendo que o dia é bonito ou alguma coisa criptografada – pelo menos isto não mudou, né.

Não que eu não goste do silêncio que se segue invariavelmente tanto às coisas relevantes como às irrelevantes. Eu mesmo é que fechei a caixa de comentários, depois de um engraçadinho, comentarista profissional de blogs que, num acesso de incompetência, achou que ia conseguir chamar a atenção comentando no meu. Justo no meu.

A época dos blogs não passou, ao contrário do que eu disse outro dia. Não existe época de blogs. Houve a época em que eu escrevia mais no blog, isso sim, mas blogs continuam por aí sendo escritos, muito ativos, entre eles alguns são bons, na minha opinião. O que passou é a época em que eu me dispunha a escrever tudo e publicar aqui tudo. Deu-me alguma coisa que não me permite mais chegar aqui e colocar tudo que penso, tudo que escrevo. Sabem, eu continuo escrevendo. Mas não publico mais aqui. Um pequeno número de pessoas já sabe disso, e até mesmo continuou a me ler sem ser aqui porque mandei por e-mail, sabendo que gostaria de ler. Mas eu não publico mais. Não tenho mais banquinha na feira.

E no entanto não fecho o espaço, porque naturalmente às vezes dá vontade de contar alguma coisa, continuar por aí, não deixar de andar ao ar mais livre e perigoso. Sou muito tradicional, e fechar isto aqui vai contra os meus princípios; quanto mais o tempo passar, menos tenderei a fechar, tendo já feito quatro anos em Dezembro.

Uma atitude possível é aquela que sempre evitei, que era escrever sobre blogs. Poucas vezes me sinto tão inútil quanto quando escrevo, no blog, sobre blogs. E estou aqui de novo numa das exceções que abro a cada uns três meses, com mais freqüência do que se poderia supor. Penso em abrir um parêntese para dizer que alguns escrevem bem sobre blogs, tanto quanto há blogs bons, mas não sei se precisa. E este post é mais sobre mim, mesmo.

Fica faltando um parágrafo final, ainda que minha intenção com este post seja uma grande não-intenção, um despropósito, embora ao mesmo tempo com um propósito bem definido de começar a tentar explicar por que este blog hoje é completamente diferente do que era em 2003, em 2004. Então não há parágrafo final: nem para o texto nem para o blog, já que, embora possa soar, este não seja um texto de despedida – mais ou menos típico de blogs, ainda quando eles se despeçam por uma semana.